Uma maldição comum nos RPGs é a pobreza franciscana de narrativas que contextualizam e orientam a ação. Isto verifica-se há décadas, possivelmente desde as origens do género, e, apesar dos benefícios que a qualidade e consistência narrativas trarão à experiência, muitos jogadores foram-se habituando, desilusão após desilusão, a remeter a história para o campo dos elementos secundários na fruição de um jogo enquanto, ao mesmo tempo, os elogios se acumulam em torno dos raros exemplos de RPG que contrariam esta regra infeliz. Heroes of Ruin tem uma história. Isso é garantido. Desde que se considere que um amontoado aleatório e gasto de clichês de fantasia poderá constituir uma história. Mas, se a mediocridade narrativa não é tida como defeito dos mais significativos na avaliação de jogos muito mais ambiciosos que este dungeon crawler portátil, também não o será aqui.
Quem esperar algum tipo de originalidade nos outros aspetos
do jogo, sairá também muito desiludido. Todos os chavões do género estão lá e
não se fez qualquer esforço para ir além deles. Há quatro arquétipos de herói à
escolha: Vindicator (um homem-leão
armado com uma enorme espada), Gunslinger
(um perito em combate à distância armado com duas pistolas), Alchitect (o mago tradicional) e Savage (um gigante dotado de um ataque
capaz de provocar enormes danos). É possível personalizar a aparência do herói
escolhido, mas as opções não vão muito além de penteado, cor de cabelo e cor de
pele.
Ignorando por completo a história (tal como 99% dos
jogadores e, provavelmente, como os criadores do jogo, que se terão limitado a
inventar um disparate superficial durante pausa de cinco minutos), o objetivo é
viajar por masmorras em cenários com variedade que satisfaz minimamente (não
havendo qualquer esforço para passar daí), cumprindo missões que nos pedem para
recolher determinada quantidade de itens ou para encontrar determinada
personagem ou objeto. Derrotando os inimigos que vão aparecendo (e que também
podiam ser mais variados), obtém-se saque: dinheiro ou equipamento. Ao destruir
elementos do cenário (que também são sempre os mesmos), encontram-se poções que
permitem restaurar a vitalidade e a energia, sendo possível acumular um número
máximo de vinte de cada um dos dois tipos. A eficaz superação dos desafios
permite acumular experiência para subir de nível, conseguindo novos poderes
especiais e permitindo equipar material mais eficaz. O equipamento obsoleto
poderá ser vendido na cidade de Nexus, que funciona como área central a partir
da qual se embarca para as várias masmorras.
Se tudo isto parecer familiar, não será surpresa.
Corresponde exatamente à fórmula de qualquer outro RPG. Mas, enquanto alguns
vão tentando acrescentar uma variação, ainda que mínima, que permita diferenciar
a experiência (mesmo que falhem), Heroes
of Ruin nem sequer avança um milímetro nessa direção, resignando-se a ser
mais do mesmo e assumindo essa faceta sem qualquer vergonha.
Com gráficos que não impressionarão ninguém, mesmo com a
aplicação adequada da tridimensionalidade, Heroes
of Ruin estará muito longe de ser o jogo mais bonito da 3DS e o som é
igualmente discreto. Pelo menos é desafiador, certo? Errado. As poções de
reparação de danos sofridos são de tal forma omnipresentes que se torna muito difícil
morrer durante o jogo.
Mesmo com todas estas limitações, estamos perante um jogo
que compensa a sua falta de ambição com alguns elementos fulcrais. Por um lado,
é jogável e bastante viciante, sendo difícil resistir ao impulso de acumular
saque e de evoluir personagens (sobretudo porque os conteúdos são relativamente
limitados e os quatro tipos de herói oferecem experiências suficientemente
distintas para justificarem incursões secundárias pelo mesmo percurso). Por
outro, o modo multijogadores é funcional e cumpre o que se esperaria, havendo
algo de muito satisfatório na possibilidade de jogar com amigos ou
desconhecidos espalhados pelo mundo com esta fiabilidade e numa consola
portátil. É inclusivamente possível ativar as comunicações por voz com os outros
jogadores.
Criativamente, Heroes
of Ruin é miserável. Tecnicamente, satisfaz os requisitos essenciais, ainda
que sem qualquer espécie de ambição. Mas, enquanto experiência e até aparecer
algo mais convincente na consola, servirá para ocupar número considerável de
horas.
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