29.6.12

Heroes of Ruin



Uma maldição comum nos RPGs é a pobreza franciscana de narrativas que contextualizam e orientam a ação. Isto verifica-se há décadas, possivelmente desde as origens do género, e, apesar dos benefícios que a qualidade e consistência narrativas trarão à experiência, muitos jogadores foram-se habituando, desilusão após desilusão, a remeter a história para o campo dos elementos secundários na fruição de um jogo enquanto, ao mesmo tempo, os elogios se acumulam em torno dos raros exemplos de RPG que contrariam esta regra infeliz. Heroes of Ruin tem uma história. Isso é garantido. Desde que se considere que um amontoado aleatório e gasto de clichês de fantasia poderá constituir uma história. Mas, se a mediocridade narrativa não é tida como defeito dos mais significativos na avaliação de jogos muito mais ambiciosos que este dungeon crawler portátil, também não o será aqui.
Quem esperar algum tipo de originalidade nos outros aspetos do jogo, sairá também muito desiludido. Todos os chavões do género estão lá e não se fez qualquer esforço para ir além deles. Há quatro arquétipos de herói à escolha: Vindicator (um homem-leão armado com uma enorme espada), Gunslinger (um perito em combate à distância armado com duas pistolas), Alchitect (o mago tradicional) e Savage (um gigante dotado de um ataque capaz de provocar enormes danos). É possível personalizar a aparência do herói escolhido, mas as opções não vão muito além de penteado, cor de cabelo e cor de pele.
Ignorando por completo a história (tal como 99% dos jogadores e, provavelmente, como os criadores do jogo, que se terão limitado a inventar um disparate superficial durante pausa de cinco minutos), o objetivo é viajar por masmorras em cenários com variedade que satisfaz minimamente (não havendo qualquer esforço para passar daí), cumprindo missões que nos pedem para recolher determinada quantidade de itens ou para encontrar determinada personagem ou objeto. Derrotando os inimigos que vão aparecendo (e que também podiam ser mais variados), obtém-se saque: dinheiro ou equipamento. Ao destruir elementos do cenário (que também são sempre os mesmos), encontram-se poções que permitem restaurar a vitalidade e a energia, sendo possível acumular um número máximo de vinte de cada um dos dois tipos. A eficaz superação dos desafios permite acumular experiência para subir de nível, conseguindo novos poderes especiais e permitindo equipar material mais eficaz. O equipamento obsoleto poderá ser vendido na cidade de Nexus, que funciona como área central a partir da qual se embarca para as várias masmorras.
Se tudo isto parecer familiar, não será surpresa. Corresponde exatamente à fórmula de qualquer outro RPG. Mas, enquanto alguns vão tentando acrescentar uma variação, ainda que mínima, que permita diferenciar a experiência (mesmo que falhem), Heroes of Ruin nem sequer avança um milímetro nessa direção, resignando-se a ser mais do mesmo e assumindo essa faceta sem qualquer vergonha.
Com gráficos que não impressionarão ninguém, mesmo com a aplicação adequada da tridimensionalidade, Heroes of Ruin estará muito longe de ser o jogo mais bonito da 3DS e o som é igualmente discreto. Pelo menos é desafiador, certo? Errado. As poções de reparação de danos sofridos são de tal forma omnipresentes que se torna muito difícil morrer durante o jogo.
Mesmo com todas estas limitações, estamos perante um jogo que compensa a sua falta de ambição com alguns elementos fulcrais. Por um lado, é jogável e bastante viciante, sendo difícil resistir ao impulso de acumular saque e de evoluir personagens (sobretudo porque os conteúdos são relativamente limitados e os quatro tipos de herói oferecem experiências suficientemente distintas para justificarem incursões secundárias pelo mesmo percurso). Por outro, o modo multijogadores é funcional e cumpre o que se esperaria, havendo algo de muito satisfatório na possibilidade de jogar com amigos ou desconhecidos espalhados pelo mundo com esta fiabilidade e numa consola portátil. É inclusivamente possível ativar as comunicações por voz com os outros jogadores.
Criativamente, Heroes of Ruin é miserável. Tecnicamente, satisfaz os requisitos essenciais, ainda que sem qualquer espécie de ambição. Mas, enquanto experiência e até aparecer algo mais convincente na consola, servirá para ocupar número considerável de horas.

Classificação: 
 

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