18.9.10

Brütal Legend














Eddie Riggs é um roadie calejado (modelado em Jack Black e com a sua voz, recriando a persona rockeira exibida em School of Rock ou como elemento da dupla Tenacious D). Vemo-lo no vídeo de introdução, miserável, forçado a dar assistência a uma banda de rock adolescente com uma multidão de fãs desvairados e sem gosto, saudoso dos bons velhos tempos do metal genuíno. Vitimado por um acidente cruel, o roadie-maravilha vê-se enviado para um mundo que parece decalcado das capas de discos dos Iron Maiden e envolvido numa luta implacável de aguerridos resistentes contra o jugo do imperador Doviculus e do seu braço direito, o capilarmente impressionante general Lionwhyte. Os diálogos consolidam o clima de saborosa tontice metaleira, grandemente enriquecida pelas prestações surpreendentes de ícones do género musical que inspira o jogo. Calma. Brütal Legend não tem apenas diálogos engraçados e vozes convincentes. Há um mundo aberto à exploração, povoado por aliados e inimigos (incluindo "abanadores de capacete" com pescoços ultra-musculados) e por criaturas bizarras que tanto atacam como podem ser usadas como meio de transporte (é impagável ouvir Jack Black dizer "be still while I mount you" a um veado mutante atordoado). Enquanto se vão cumprindo os objectivos que fazem avançar a coisa, há ainda missões secundárias premiadas com a possibilidade de upgrades do armamento de Eddie (um machado de guerra e uma guitarra) e do... chamemos-lhe "bólide" que surge quando necessário, graças a um solo de guitarra interpretado em jeito de Guitar Hero (há solos para outros fins, como, por exemplo, erguer relíquias do chão ou derreter as caras dos adversários... sim, foi mesmo isso que leram). E quem não gostar nem de Jack Black bem de heavy metal? Bom... nesse caso, o melhor talvez seja jogar sem som e com as legendas activadas (para evitar vozes e a banda sonora, que é excelente) e fica-se assim com um clone de Grand Theft Auto em versão campestre-medieval-sobrenatural com arremedos ocasionais e muito superficiais de Command and Conquer. Mas seria um grande desperdício.

Classificação: 

9.9.10

Rastan Saga


















A primeira vez tem sempre outro encanto. Não, tenham lá calma que não vamos por aí. Refiro-me à primeira vez que me tornei cliente oficial de uma sala de jogos. Para quem tiver nascido noutro tempo, uma sala de jogos era um sítio mítico, cheio de mesas de bilhar, matraquilhos e máquinas com (adivinhem...) jogos, onde se apanhavam vícios malvados e de onde se vinha sempre a cheirar a tabaco. Eram muito populares quando os ZX Spectrum e os Commodore Amiga eram luxos raros e tinham a particularidade de só permitirem entrada a maiores de 16 anos (ou seja, proibia-se a entrada à clientela mais interessada em usufruir do serviço porque o legislador sempre foi um gajo sádico). Adiante. O meu primeiro jogo numa sala de jogos chamava-se Rastan Saga. De que tratava? Não sei bem. Havia um bárbaro pixelizado que andava para trás e para a frente com movimentos muito pouco fluidos e uns inimigos muito coloridos e variados que se moviam exactamente da mesma forma. Ia-se avançando à espadeirada às criaturas que nos saltavam ao caminho (e que, às vezes, atacavam por trás, as estúpidas), saltava-se sobre uns abismos e uns ribeiros, apanhavam-se umas armas manhosas colocadas em sítios de difícil acesso e... E não sei. Estava tão empenhado naquilo e tão maravilhado com a música e os efeitos sonoros, que pareciam criados batendo com chaves de fendas em tachos, que nem percebi que havia um mutante verde ali mesmo ao lado e morri. Foi curto, mas as primeiras vezes costumam sê-lo. E não custou quase nada. Só uma moeda de 50 escudos.

Classificação: http://inepcia.com/pacman/pac3.png

Pac-Man























Um destes dias, trocava ideias com outra alma apreciadora de jogos (que me dirá que as coisas não se passaram bem assim três segundos antes de lhe recordar o conceito de liberdade poética) e a conversa veio parar ao Pac-Man. Dizia-me que nunca tinha gostado muito do jogo em questão porque acabava por se tornar muito difícil. Discordei num pormenor singelo, mas incontornável. Não nego que Pac-Man seja um jogo difícil, mas, em vez de ser um jogo "que se vai tornando muito difícil", é um jogo com um grau de dificuldade absurdo, frustrante e (porque não dizê-lo?) enlouquecedor desde a primeira moeda inserida (porque se tratava originalmente de um jogo de arcade, mesmo que agora esteja em toda a parte e em todas as plataformas) até à inevitável derrota, entre lágrimas e gritos de "PORQUÊ, MEU DEUS?!?! PORQUÊ?!?!", que podiam ou não ser acompanhados por puxões violentos ao manípulo. Em teoria, não tem nada que saber e nem sequer parece assim tão apelativo, sobretudo para gerações estragadas por jogos complexos e hiper-realistas. Há um labirinto com corredores cheios de pastilhas dispostas em linha e uma bola amarela com boca que abre e fecha e que viaja pelo labirinto até comer todas as pastilhas (é o objectivo final da coisa). Há também quatro fantasmas de cores diferentes que perseguem o rotundo e faminto protagonista e, se o alcançam, lá se vai uma vida. A única hipótese de salvação, além de muitas mudanças de direcção estratégicas, são quatro pastilhas maiores, uma em cada canto, que fazem os fantasmas mudar de cor e invertem os papéis durante alguns segundos. Quando o labirinto fica limpo de pastilhas, passa-se ao nível seguinte e repete-se o mesmo, uma e outra vez. Este enredo shakespeariano nasceu na cabeça de um japonês chamado Toru Iwatani que, em 1980, depois de, supostamente, ter visto potencial numa personagem com a forma da pizza com fatia subtraída que tinha à sua frente, criou um jogo chamado "Puck Man". Popularizado no Japão, o jogo foi levado para a América, onde foi rebaptizado "Pac-Man" por receio de que o nome original fosse facilmente vandalizável. Diz-se que é possível jogar 255 níveis até um bug no 256º pôr fim à empreitada. Como ser humano que nunca passou do quarto nível, se me apresentarem alguém que tenha chegado ao décimo, comporto-me como se tivesse Jesus Cristo ressuscitado à minha frente. 256º nível? Por favor, não gozem com coisas sérias.

Classificação: http://inepcia.com/pacman/pac6.png 

 

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