Um destes dias, trocava ideias com outra alma apreciadora de jogos (que me dirá que as coisas não se passaram bem assim três segundos antes de lhe recordar o conceito de liberdade poética) e a conversa veio parar ao Pac-Man. Dizia-me que nunca tinha gostado muito do jogo em questão porque acabava por se tornar muito difícil. Discordei num pormenor singelo, mas incontornável. Não nego que Pac-Man seja um jogo difícil, mas, em vez de ser um jogo "que se vai tornando muito difícil", é um jogo com um grau de dificuldade absurdo, frustrante e (porque não dizê-lo?) enlouquecedor desde a primeira moeda inserida (porque se tratava originalmente de um jogo de arcade, mesmo que agora esteja em toda a parte e em todas as plataformas) até à inevitável derrota, entre lágrimas e gritos de "PORQUÊ, MEU DEUS?!?! PORQUÊ?!?!", que podiam ou não ser acompanhados por puxões violentos ao manípulo. Em teoria, não tem nada que saber e nem sequer parece assim tão apelativo, sobretudo para gerações estragadas por jogos complexos e hiper-realistas. Há um labirinto com corredores cheios de pastilhas dispostas em linha e uma bola amarela com boca que abre e fecha e que viaja pelo labirinto até comer todas as pastilhas (é o objectivo final da coisa). Há também quatro fantasmas de cores diferentes que perseguem o rotundo e faminto protagonista e, se o alcançam, lá se vai uma vida. A única hipótese de salvação, além de muitas mudanças de direcção estratégicas, são quatro pastilhas maiores, uma em cada canto, que fazem os fantasmas mudar de cor e invertem os papéis durante alguns segundos. Quando o labirinto fica limpo de pastilhas, passa-se ao nível seguinte e repete-se o mesmo, uma e outra vez. Este enredo shakespeariano nasceu na cabeça de um japonês chamado Toru Iwatani que, em 1980, depois de, supostamente, ter visto potencial numa personagem com a forma da pizza com fatia subtraída que tinha à sua frente, criou um jogo chamado "Puck Man". Popularizado no Japão, o jogo foi levado para a América, onde foi rebaptizado "Pac-Man" por receio de que o nome original fosse facilmente vandalizável. Diz-se que é possível jogar 255 níveis até um bug no 256º pôr fim à empreitada. Como ser humano que nunca passou do quarto nível, se me apresentarem alguém que tenha chegado ao décimo, comporto-me como se tivesse Jesus Cristo ressuscitado à minha frente. 256º nível? Por favor, não gozem com coisas sérias.
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