10.4.12

Mass Effect 3

Dois tipos de leitores estarão interessados numa crítica de Mass Effect 3. Os clientes habituais da série, que já jogaram os dois capítulos anteriores, sabem o que os espera e querem saber, sobretudo, se a conclusão da epopeia cósmica será capaz de honrar os seus consideráveis pergaminhos, e os recém-chegados, que nunca jogaram um jogo Mass Effect e perguntam se este terceiro capítulo justificará o burburinho. A resposta às duas perguntas será categoricamente afirmativa.
Talvez seja cruel recomendar a quem está pronto para embarcar numa nova aventura RPG que comece por jogar os dois jogos anteriores, mas é preciso recordar que não estamos perante um original e duas sequelas, mas sim perante uma mesma história serializada em três partes. Não é impossível apanhar o fio à meada começando pelo capítulo final, mas as referências a eventos passados serão frequentes. Para quem é cliente antigo, existe a possibilidade de importar jogos guardados nos capítulos anteriores, maximizando-se a sensação de continuidade sem anular a possibilidade de personalizar a aparência de Shepard (incluindo a escolha do sexo) e de escolher uma nova classe. Recomenda-se alguma contenção na  configuração dos parâmetros variados que determinarão o aspeto do protagonista para que não se cometa o erro cometido pelo autor deste texto em Mass Effect 2. Pode ser divertido fazer uma personagem que é uma réplica quase perfeita do selecionador nacional Paulo Bento acrescido de farta bigodaça, mas é preciso lembrar que terão de olhar para ele durante um jogo longo e nem sempre será possível esconder-lhe a carantonha com um capacete.
Não sendo um prodígio narrativo e arrastando a mesma ameaça dos Reapers desde o primeiro jogo, a história supera os mínimos e mantém o jogador preso sobretudo pelo desempenho notável de um elenco de vozes escolhido com esmero e por uma mecânica engenhosa de relacionamentos realistas entre as personagens, com as opções de diálogo a refletirem-se no comportamento e nas interações futuras e podendo mesmo suscitar envolvimentos românticos. Quem não quiser perder tempo com decisões e dilemas morais, poderá optar por jogar num modo que torna as conversas automáticas e permite que o jogador se concentre sobretudo na ação.
Isto porque, apesar dos elementos de RPG, Mass Effect 3 é também um third-person shooter incrivelmente satisfatório. As fases de exploração dos ambientes de visual magnífico e de interação com as criaturas de várias espécies que os povoam alternam com missões de campo em que Shepard escolhe duas das personagens que vai recrutando ao longo da aventura para integrarem a sua equipa. As armas são variadas (a sua utilização depende da classe escolhida) e os poderes e atributos especiais de cada classe desempenham papel preponderante na superação de momentos em que a situação não se resolve apenas com tiros. Pelo caminho, vão surgindo peças de artilharia e fatos blindados controláveis, que permitem variedade bem-vinda.
Os inimigos, desde os sinistros Reapers, criaturas mecânicas que pretendem destruir toda a vida orgânica da galáxia, aos agentes da Cerberus ao serviço do enigmático Illusive Man, não facilitam e sabem usar os elementos naturais e arquitetónicos em seu favor em vez de se limitarem a avançar ao encontro de uma morte certa. Mas nem todos precisam de seguir esta tática cautelosa. Vários geram escudos energéticos e outros movem-se a coberto de escudos blindados mais convencionais, transformando rajadas insistentes em simples desperdícios de munição e exigindo tipos específicos de projétil ou estratégias de combate adequadas a cada caso.
Os gráficos e o som são impressionantes, sem mudanças óbvias desde o capítulo anterior. Isto não será uma crítica, pois era difícil ir muito além dos gráficos de Mass Effect 2, tendo passado apenas dois anos e sem evoluções significativas ao nível do hardware. Não apenas os ambientes são quase fotorrealistas, mas também as personagens conseguem parecer quase reais. Isto aplica-se às espécies alienígenas mais bizarras como os turians, os krogans ou os salarians, mas sobretudo aos humanos e às espécies de expressão mais familiar, com olhos e trejeitos quase capazes de enganar um cérebro que costuma reagir com alguma repulsa a tentativas computorizadas de simulação da face humana. O feito não é uniforme e notar-se-á mais nalgumas personagens do que noutras, mas será muito difícil encontrar defeitos na face masculina default de Shepard ou nas de Joker ou Miranda.
Chegando ao fim da saga, o modo multijogadores faz uma aparição apetecível, com missões adicionais para equipas até quatro jogadores cujo resultado terá uma influência simbólica no decurso da campanha principal. Este modo alternativo não consegue eclipsar a campanha individual e nem sequer se aproximará disso, mas não deixa de ser eficaz. Especial encanto terá a possibilidade de jogar com personagens criadas propositadamente para o efeito e que poderão pertencer a espécies variadas, cada uma com habilidades próprias.
Muito se tem falado do final, sendo muitas as vozes a apontá-lo como maior defeito do jogo. Sem querer estragar a surpresa (o que impossibilita a exposição de pormenores), diga-se apenas que, quem esperar um desfecho linear e fechado pode preparar-se para uma desilusão. No entanto, adequa-se a uma experiência que foi sempre muito marcada pela tomada de decisões e pela existência de consequências frequentemente trágicas.
Mass Effect 3 é um final muito digno para uma trilogia que soube conquistar seguidores pela sua mistura de conceção cuidada, jogabilidade entusiasmante e personagens que apaixonam (e que se apaixonam). Deixará saudades. A não ser que se decida que o final não era bem o final e que há vontade de lucrar com mais uma sequela. Nesse caso, restar-nos-á abanar a cabeça em reprovação e esperar que o próximo seja tão bom como este.

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