A primeira coisa que deve ser dita acerca desta versão de Minecraft que agora chega às consolas em
exclusivo para a Xbox é dirigida a quem já conhece a versão PC e deverá arrumar
a questão e acalmar as ansiedades que possam existir. É apenas isto: Minecraft na Xbox continua a ser Minecraft. Sem precisar de forçar a
aceitação nem de esquecer limitações.
Para quem não conhece o jogo, a tarefa será mais palavrosa e
até algo inglória. Jogar Minecraft é
daquelas atividades em que, por mais que alguém se esforce, a explicação nunca
fará justiça à experiência. Talvez seja comparável a explicar a um visitante
estrangeiro porque se comem tremoços e qual o método adequado de morder a casca
e extrair o petisco. Começa por parecer um passatempo despropositado. Depois da
explicação, a complexidade junta-se à falta de propósito. Mas, quase imediatamente
após experimentar, tudo se torna perfeitamente claro e parar exige um imenso
esforço de contenção.
Mesmo assim, feita a ressalva de que a única forma adequada
de avaliar Minecraft será jogando,
tentemos uma explicação.
Quando se inicia um novo jogo, encontramo-nos num mundo
gerado aleatoriamente. Existem vários tipos de ambientes (florestas, pradarias,
montanhas, desertos, pântanos...) e podemos mover-nos livremente por onde
entendamos. A princípio, parece ser apenas isso e não é claro qual o objetivo
ou se existirá um. Até descobrirmos que podemos esmurrar os elementos da
paisagem e recolher materiais. Obtêm-se blocos de terra esmurrando o chão,
blocos de madeira esmurrando árvores e assim sucessivamente. Os blocos
recolhidos permitem construir estruturas e ferramentas que, por sua vez,
permitirão recolher materiais de outro tipo e construir estruturas cada vez
mais avançadas.
Mas não é tudo. Quando anoitece, grunhidos assustadores
anunciam a chegada de monstros (mortos-vivos, aranhas gigantes, esqueletos
arqueiros) que nos querem roer os pixels e dos angustiantes creepers, cujo principal propósito
parece ser explodirem e destruírem tudo o que construímos. Em caso de tragédia,
nada está perdido. Exceto, claro, todos os recursos que recolhemos e não
guardámos numa arca em local seguro e todo o equipamento que transportávamos.
Para evitar estes dissabores, é necessário construir um abrigo. Um buraco no
chão, uma cabana de madeira, um iglu esquimó
ou uma réplica à escala do Palácio de Buckingham, tudo será possível com o
empenho adequado. Quando as coisas se tornam menos movimentadas à superfície, uma
boa opção será construir minas a profundidades assombrosas (é até recomendável
porque os materiais mais valiosos não se encontram à superfície) ou até
fabricar um portal para uma dimensão paralela.
No entanto, apesar de estarmos perante uma cópia muito fiel
da versão PC, algumas diferenças são inevitáveis. O sistema de crafting, por exemplo, é simplificado e
adaptado ao controlador da consola. Em vez de ser necessário colocar os
materiais numa grelha seguindo uma configuração específica, bastará possuí-los
na quantidade adequada e a configuração ocorrerá de forma automática.
O tutorial é um acréscimo muito bem-vindo, evitando em
grande parte o esforço de ler wikis para
perceber o que fazer e como. Juntando a isto um sistema de dicas eficiente, a
introdução do jogo a novos jogadores é um aspeto em que a versão Xbox bate o
original por larga distância.
Outra alteração verifica-se no modo multiplayer que, além do jogo online, permite ainda que quatro jogadores em
simultâneo utilizem o mesmo sistema com o ecrã dividido em quatro partes.
Apenas uma alteração motivará queixas: a inexistência do
"modo criativo" que, no PC, permite construção livre com todos os
materiais disponíveis em quantidade ilimitada, imunidade aos inimigos noturnos
e a possibilidade de voar sobre a paisagem para facilitar deslocações,
construções e para permitir apreciar melhor a obra criada. Mas, porque a versão
adaptada à consola não é a versão mais atual jogável no PC e porque nos são
prometidas atualizações futuras, é muito possível que essa e outras
funcionalidades sejam implementadas no futuro.
Minecraft não é um
jogo convencional. Não orienta o jogador, não o força a fazer isto ou aquilo. Assemelha-se
mais a uma ferramenta que permitirá ao utilizador fazer o que bem entenda e
aplicar livremente a sua criatividade. Apela a um lado aventureiro da natureza
humana ao permitir explorar um mundo que sabemos ser único e criado
propositadamente para nós. Exige esforço e recompensa-o de forma multiplicada.
Puxa pela imaginação, motiva projetos e impele-nos a aumentar a sua
complexidade de forma praticamente infinita. Avaliando pelo que pretende
alcançar e pelo que consegue ser, o ponto que impede a classificação perfeita
explica-se unicamente pela ausência do modo criativo.
Classificação: 