Se, no Darksiders
original, o jogador controlava a personificação da Guerra, nesta sequela, o
protagonismo é transferido para outro dos Cavaleiros do Apocalipse, o ceifeiro
sombrio cujo tenebroso dever é pôr fim às nossas existências mortais. Esqueçam
o vulto esguio e esquelético coberto por uma túnica negra segurando a sua foice
com falanges descarnadas. Substitua-se a figura clássica por uma versão
revestida com musculatura abundante, com cabelo longo e ocultando uma face que
se imagina pouco prazenteira atrás de uma máscara adequadamente sinistra. Em
vez da simples alfaia agrícola, imaginem-se duas grandes foices de aparência
assassina e uma arma secundária de dimensões colossais e chegar-se-á mais perto
da versão que protagoniza Darksiders II.
A primeira coisa que se sente é uma incrível familiaridade e
não necessariamente por se ter jogado também o primeiro título da série. Para
começar, é difícil não sentir que o combate, com os seus movimentos exuberantes,
armas gigantes e golpes finais sangrentos e vagamente sádicos, foi inspirado
por God of War. As escaladas por
paredes acima e as corridas por superfícies verticais parecem decalcadas de Prince of Persia, os puzzles têm qualquer coisa de Tomb Raider e a estrutura composta por
área ampla percorrida a cavalo alternada com masmorras labirínticas cheias de
portas trancadas e baús de tesouro faz lembrar Ocarina of Time. Sem esquecer que a possibilidade de embarcar numa
corrida pela subida de nível da personagem e pela aquisição de equipamento cada
vez mais eficaz facilmente encaixaria num qualquer dungeon crawler inspirado por Diablo.
Quer isto dizer que, pela manifesta falta de originalidade, Darksiders II deverá ser remetido para
as profundezas infernais dos jogos que não merecem a atenção do jogador
informado quando há tanta coisa apetecível para jogar? Nada disso e o motivo é
muito simples. É que, apesar de se apresentar como esta manta de retalhos com
fontes tão diversas, trata-se de um bom jogo. Mesmo sem ter praticamente nada
de novo, a ação é fluida, apelativa ao olhar e perfeitamente satisfatória para
os especialistas em massacrar botões e torcer manípulos. Os cenários estão bem
concebidos, os inimigos movem-se e atacam de forma desafiante e a variedade de
golpes é adequada, com algumas animações bastante conseguidas. Os gráficos são
algo mortiços em termos cromáticos, apesar de encaixarem bem no espírito de
desolação exigido pela história, e os modelos das personagens, ainda que bem
construídos, com boa definição e com uma inclinação minimalista e grotesca (no
melhor sentido) pecarão unicamente pela falta de personalidades mais apelativas.
A música vai oscilando de qualidade, erguendo-se muitas vezes acima da linha do
"discretamente empolgante" e não baixando demasiadas vezes abaixo
dela, e o elenco de vozes ronda a excelência, com Michael Wincott revelando-se
uma escolha perfeita para dar voz à morte.
A história poderia ter sido muito melhor e nem seria difícil
ir um pouco mais além, partindo de premissa tão interessante: a morte decide
vir em auxílio do seu irmão, a guerra, aprisionado pelo ligeiro deslize de ter
aniquilado a humanidade. Mas não é isso que acontece. Em vez de uma narrativa
memorável, temos um fio condutor que vai tocando sempre os pontos certos e que
nunca deixa de ser perfeitamente coerente, mas que se arrasta demasiado e roça
demasiado o genérico e o previsível. Juntando a isto, a falta de variedade nas
armas e armaduras que se vão colecionando (que, basicamente, são variações dos
mesmos modelos apenas com ligeiras mudanças cosméticas) e um sistema de menus que
poderia ser muito mais apelativo e funcional e completa-se o retrato de um jogo
que combina elementos de sucesso comprovado por jogos mais ambiciosos e
consegue fundi-los, proporcionando uma experiência bastante positiva e com
durabilidade considerável. Se era esse o objetivo, calem-se as críticas de
falta de ambição e louve-se o espírito pragmático.
Classificação:
Classificação: