26.7.12

Kingdom Hearts 3D: Dream Drop Distance

Ensina-nos a experiência que há coisas que não se devem misturar. Por maiores que sejam os méritos individuais, uma combinação produzirá algo trágico e motivador de pesadelos. A não ser, claro, que essa combinação se faça no Japão. Nesse caso, não só o resultado será perfeitamente aceitável como correrá o risco de se transformar num êxito dentro das fronteiras do Império do Sol Nascente ou em todo o mundo.
Um exemplo perfeito é a saga Kingdom Hearts, que, desde 2002, vai misturando o universo Disney com personagens da série Final Fantasy num RPG de ação com laivos apocalípticos. Este novo acréscimo à cronologia, o primeiro na 3DS, não desiludirá os apreciadores devotos e continuará a não encantar quem nunca se deixou levar pela magia. Ou seja, a fidelidade à série é total, os méritos são grandes e os eventuais defeitos (quase todos dependendo sobretudo de questões de gosto pessoal) continuam presentes e não desaparecerão tão cedo. Até porque o que muitos verão como fragilidades será interpretado por outros como marcas que tornam a saga identificável e única.
Para quem não saiba o que esperar e tenha com este jogo o primeiro contacto com a série, a história não será fácil de perceber e as abundantes cutscenes (possivelmente demasiado abundantes, ao gosto nipónico) não ajudarão. Sora e Riku são recrutados pelo feiticeiro Yen Sid (o mestre de Mickey no lendário Fantasia) para aprimorarem os seus talentos com a keyblade num momento em que o regresso do vilão Xehanort estará iminente.
A progressão faz-se por áreas visualmente deslumbrantes maioritariamente baseadas em filmes Disney (do Corcunda de Notre Dame a Tron: o Legado) que se encontram infestadas por criaturas malévolas conhecidas como Dream Eaters. O combate é fluido e enriquecido por um engenhoso sistema flowmotion que permite usar elementos do cenário para aumentar as possibilidades atacantes, por exemplo, rodopiando num candeeiro para sair disparado contra um alvo. Além do flowmotion, destaque ainda para os elementos de reality shift diferentes em cada área e que permitem interação por intermédio do ecrã tátil. Entre cada mundo há descidas vertiginosas em que se torna necessário evitar obstáculos e inimigos (ou atacar estes últimos) e ir juntando estrelas.
Além de desempenharem o papel de antagonistas, o jogo destina outra finalidade mais simpática aos Dream Eaters, permitindo que vão sendo domesticados e convertidos em aliados. Cada um destes Spirit Dream Eaters (que contrastam com os Nightmare Dream Eaters maus) poderá ser treinado de várias formas, sendo possível uma interação direta, num sistema que mistura elementos das criaturas virtuais "adoráveis" da série Nintendogs com um instinto colecionador reminiscente dos Pokémon. Os Dream Eaters personalizados pelo jogador acabam por roubar a personagens emblemáticas como Donald ou Pateta a participação mais ativa que tiveram em jogos anteriores, atirando-os em exclusivo para as cutscenes.
Outro ligeiro amargo de boca é visual. A qualidade dos gráficos acaba por contrastar com a austeridade dos ambientes que, demasiadas vezes, parecem vazios e sem vida. Também a solução encontrada para substituir um dos protagonistas pelo outro (com o esgotar de um contador) nem sempre será bem-vinda por ser brusca e poder ocorrer em momentos menos oportunos, mas compreende-se pela necessidade de manter a fluidez narrativa e de alternar os dois pontos de vista entrelaçados.
Porque este Kingdom Hearts 3D não é um jogo a que se possam apontar grandes falhas, mas apenas pormenores cuja aceitação será menos consensual e que impedirão um reconhecimento sem reservas do estatuto de jogo marcante e, nesse sentido, são demasiados os elementos geradores de reações de amor ou ódio sem posturas intermédias. Quem não apreciar RPGs com traços indiscutivelmente japoneses, odiará também este. Quem não suportar Mickey, Donald e companhia, idem. Mas os fãs da saga que possuam uma 3DS ficarão satisfeitos e aumentarão as expetativas enquanto não chega o prometido Kingdom Hearts III, ainda sem data de lançamento ou mesmo sem se saber para que plataforma será lançado.

Classificação: 
 

o pac-man deu cabo de mim © 2010. Chaotic Soul :: Converted by Randomness